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O samba e o Brasil: algumas histórias que você não conhecia

1. Introdução

Parafraseando o relato de Machado de Assis no conto “Pai contra mãe”, a máscara de folha-de-flandres fora um dos instrumentos que perderam utilidade com a assinatura da Lei Áurea. “Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado”.

Alguns ferreiros perderam dinheiro com a abolição e centenas de milhares de escravos viram-se sem perspectiva e sem identidade cultural. Tanto que, no censo de 1872, os africanos eram separados apenas entre escravos e alforriados. Dias ruins para aqueles que tornaram-se problema social. Dias ruins para aqueles que se encontraram nos morros, onde começaram a exercer, verdadeiramente, sua liberdade.

De Angola para a Bahia. Das ruas e vielas para as cordas vocais de grandes estrelas. O samba tem suas origens oficiais, seus bambas e, principalmente, as histórias de malandros, contadas à boca pequena.

É segredo, mas a Apito de Mestre vai te contar!

Origens do Samba

2. A origem do samba

Antes de o homem ter uma linguagem, ele dançou. Expressou, com seu corpo em movimento, a sua cultura; homenageou os deuses; seduziu e encantou. Dos primórdios da civilização até os dias atuais, as danças evoluíram, ganharam melodia, letras e tornaram-se representações fiéis da sociedade.

A corte europeia se divertia com as valsas e polcas. Na Ásia, a delicadeza das danças das gueixas contrastava com as cores e sensualidade das dançarinas nas arábias. Na África, os troncos ocos das árvores tornavam-se tambores que ecoavam por entre as milhares de tribos, desde o início das civilizações.

O som dos djembês tocou e, da palma da mão em contato com o couro, surgiram palavras, rimas improvisadas que contavam as histórias de um povo. Das guerras contra outras tribos às odes para as divindades, o som de além-mar foi silenciado. Nos navios negreiros, ouviam-se apenas as ondas do oceano e os grilhões presos aos tornozelos de gente, agora escravizada.

Do Brasil Colônia ao Império independente, os cativos mantiveram suas tradições, graças às rodas de samba e aos pagodes, nome dado às festas nas senzalas. Sem registros formais, apenas pela oralidade, a cultura dos afrodescendentes manteve-se de pé.

Libertos, mas ainda dependentes, os ex-escravos passaram a, apenas no fim do século XIX, construir sua identidade. Assim começou o samba. Na Bahia, rodas de batuque com versos improvisados assinaram as origens desse ritmo e tornaram-se patrimônio cultural da humanidade.

A competição de verso e prosa, chamada de samba de roda, saiu do Recôncavo Baiano e, como milhões de migrantes, seguiu para a então capital, Rio de Janeiro, em busca de melhores oportunidades. Encontrou abrigo nos becos dos morros cariocas, nas casas das baianas.

Da primeira gravação considerada samba, “Pelo Telefone”, de Donga, ao samba de fundo de quintal, os reis das favelas, com seus chapéus, ternos de linho e sapatos bicolores, passaram a contar suas histórias para toda a cidade…

E, de lá, para todo o mundo... 

3. Os tipos de samba

Samba de roda, samba de breque, samba rasgado e partido alto. Também tem o samba rock, o samba sincopado, o samba de gafieira e até o pagode. Muitas ramificações, cada uma com suas peculiaridades. Vamos saber um pouco mais sobre os principais tipos de samba?

  • Samba de Roda

O samba de roda baiano é uma das manifestações mais ricas e genuínas da cultura brasileira. É festa, é poesia, é história! O estilo que deu origem ao samba foi inspirado em uma dança angolana, chamada de semba. Já na década de 1860 haviam registros do samba de roda muito semelhante à forma como ficou conhecido e popularizou-se.

Em 2004, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o gênero como Patrimônio Cultural do Brasil. No ano seguinte, tornou-se Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, chancela concedida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

  • Samba de Raiz

Há várias definições para o samba de raiz. O que todo mundo diz é que são aqueles sambas “das antigas”. O que querem dizer, na verdade, é que são as composições que remetem aos tempos de festa nas casas das baianas. Composições que contam as dificuldades do dia a dia, sempre vividas com a cabeça erguida.

  • Samba-Enredo

Nos morros, o samba cresceu, mobilizou o povo e ganhou uma história. Eram os enredos, com suas frases em homenagem às raízes ou histórias sobre as nossas belezas naturais. Regidas pelos apitos dos mestres, surgiram as baterias, responsáveis por contagiar quem gosta de samba (e até quem não gosta) nas avenidas cariocas.

Hoje, as baterias de escolas de samba não se limitam aos carnavais. Grandes ritmistas fazem apresentações em festas corporativas, formaturas, aniversários, bodas e casamentos. A Apito de Mestre vai além: nossos bambas compõem aquele samba exclusivo para tornar seu dia ainda mais especial.

  • Samba-Canção

Ainda na primeira metade do século XX, o samba, que popularizou-se também entre a classe média, incorporou-se aos tangos e boleros. As canções, com tons mais lentos e letras mais dramáticas, contavam histórias de desilusões, sempre apropriando-se na melodia dos violões.

  • Bossa Nova

No mesmo estilo “um banquinho e um violão”, surgiu um gênero que integrou a musicalidade do samba aos arranjos elaborados de blues e jazz. A bossa nova, com suas letras de homenagem à brasilidade, levaram o samba para o mundo. “Garota de Ipanema”, composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim já foi interpretada por Frank Sinatra, Cher Amy Winehouse e até pela Madonna.

  • Samba Paulistano

A Terra da Garoa também deu samba. Com a originalidade e oralidade traduzida em composição, Adoniran Barbosa e os Demônios da Garoa, principalmente, uniram a rotina do trabalhador da periferia na “locomotiva do país”, ao ronco das cuícas do Osvaldinho da Cuíca e provaram que o samba se encaixa e metamorfoseia-se em infinitos gêneros sendo apenas um.

  • Partido-Alto

Se o samba de batuque, com seus surdos já fazia sucesso nas décadas de 1960 e 1970, os grandes sambistas precisavam restabelecer as raízes do ritmo que chegou de Angola e estabeleceu-se na Bahia. Do improviso o samba nasceu, para o improviso ele voltou. O partido-alto trouxe de volta as rodas de rimas feitas na hora para encaixar nas melodias.

4. Os principais sambistas brasileiros

  • Noel Rosa

O Poeta da Vila, cuja saúde debilitada privou-nos de seu talento por mais tempo. Em aproximadamente oito anos de carreira, antes de ser acometido por uma tuberculose, Noel Rosa contribuiu para a consolidação desse gênero musical.

Seus sambas tratavam da vida mas, principalmente do próprio samba. Então, além de um vasto acervo disponível em domínio público (visto que, em 2008 completou-se o 70º aniversário de morte do compositor), com mais de cem músicas escritas exclusivamente por Noel, temos um grande registro histórico do dia a dia dos sambistas nos anos 1930.

  • Cartola

Angenor de Oliveira nasceu no Catete, mas aos onze anos já morava no Morro da Mangueira. De tipógrafo, pedreiro (onde ganhou o apelido, por usar sempre um chapéu para proteger-se do Sol) a compositor. Ao lado de Carlos Cachaça, fundou a verde e rosa da Mangueira. De idas e vindas nas décadas seguintes, surgiram algumas das melhores composições da música brasileira, como "As Rosas Não Falam" e "O Mundo é um Moinho".

  • Adoniran Barbosa

E quem diz que samba é só para descendentes de africanos engana-se completamente. Em São Paulo, o ítalo-brasileiro João Rubinato transformou a linguagem falada em letra. A “frechada” de seus versos é apenas um exemplo da importância de seu trabalho, que fez poesia da correria para embarcar no último trem, ou dos desencontros de uma noite de samba, ou de um olhar tão compenetrante que “mata mais do que bala de carabina, que veneno estricnina, que peixeira de baiano. Mata mais que atropelamento de automóver e que bala de revórver”.

  • Martinho da Vila

Se o samba é sinônimo de viver bem com a vida, não há maior símbolo do gênero que Martinho da Vila. E, segundo ele, quem canta seus males espanta, seja um samba-enredo, um xaxado ou um samba rasgado. Devagar, devagarinho, Martinho José Ferreira foi levando de Duas Barras, no Rio de Janeiro, seu coração vagabundo, sua malandragem e sedução em forma de música para causar disritmia e fazer derreter e arrepiar todo e qualquer sambista que se preze.

  • Paulinho da Viola

Sempre visto como baluarte da Portela, Paulinho da Viola é conhecido por suas habilidades em diferentes gêneros, do samba de raiz, criando pelos sambas-enredo e até com grandes composições de choro. Tornou-se, portanto, um artista único, com linguagem própria. De “Pecado Capital” a “Coração Leviano”, Paulinho construiu, em mais de quatro décadas de carreira, um manancial de composições, que fazem parte das nossas vidas mesmo sem que percebamos, como os rios.

  • Clara Nunes

O dom da música veio do pai violonista e folião de reis. De voz doce e afinada, a “guerreira” de infância pobre em Caetanópolis (até então distrito de Paraopeba, em Minas Gerais), tornou-se sereia nas praias do Rio de Janeiro. Sua morte precoce, contudo, encerrou, aos quarenta anos, uma carreira que traria muitas outras histórias de uma mineira que gostava mesmo é de caminhar com os pés na areia.

Esses são apenas alguns nomes. Poderíamos produzir um e-book apenas com os grandes gênios do nosso samba e, mesmo assim, não seria suficiente. Carmen Miranda, Ataufo Alves, Caymmi, Candeia, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Jamelão, João Nogueira e tantos outros baluartes da nossa brasilidade são mais que grandes músicos e compositores. São personagens da nossa história e cultura.

5. 7 histórias de samba que você não conhecia

Se os bambas eternizaram suas canções, nem todas as histórias foram compartilhadas em público.  No meio do samba, há aqueles boatos e causos sobre os quais só se comenta nos botequins. Vamos ver algumas dessas histórias que pouca gente conta?

  • O Pagode das senzalas

No Brasil Imperial, pagodes eram as festas que os escravos faziam nas senzalas. Era nesses momentos que tentavam manter a única liberdade que não lhes era privada: a cultural. Depois de libertos, os pagodes continuaram sendo adjetivo pejorativo. Era sinônimo de bagunça, baderna. Apenas anos depois, o samba ganhou letras mais românticas, misturou-se ao rap e ao som das bandas de pop, e o pagode virou uma ramificação do samba.

  • Origem na umbigada angolana

A palavra angolana Semba pode ter dois significados devido aos diversos dialetos falados no país africano. Pode ter sido interpretada do idioma quimbundo, e significaria “umbigada”, uma dança performada colocando em contato os umbigos dos dançarinos. Contudo, se for oriunda do umbumdo, quer dizer “animação” ou “festa”. Independentemente da origem de nomenclatura, é uma dança que une sensualidade, tradição e alegria.

  • Quem realmente compôs “Pelo Telefone”?

Donga foi aquele que registrou a primeira gravação do samba. Certamente, ele sabia da preciosidade que tinha em mãos. Contudo, a canção (inicialmente chamada de “Roceiro”) composta na casa da Tia Ciata é uma produção coletiva que teve os versos redigidos pelo jornalista Mauro de Almeida. Donga chamou de “Pelo Telefone” e, dali em diante, a música brasileira mudou para sempre.

  • A primeira escola de samba

No fim da década de 1920, surgiu uma escola que realmente ensinava e formava ritmistas. Fundada pelo sambista Ismael Silva, a Deixa Falar, localizada no bairro do Estácio, deu origem às agremiações. Já nesse período, nos primórdios do samba no país, foram incorporadas as cuícas e os surdos, cujos sons perfeitamente distinguíveis são ouvidos até hoje nas avenidas.

  • A ala das baianas

Nos desfiles de escolas de samba é obrigatória a presença da ala das baianas. É uma homenagem às tias baianas, que trouxeram o samba do Nordeste. Foram elas as responsáveis por receber, com xinxin, acarajé, tamborim, samba no pé e hospitalidade, as primeiras rodas de samba ainda quando o ritmo era apenas um resgate da cultura de um povo que ainda estava aprendendo a ser livre.

  • Foi um rio que passou em minha vida

O portelense Paulinho da Viola ficou em maus lençóis quando viu "Sei lá, Mangueira" (composição musicada por ele) ser interpretada no festival de música da TV Record. Para não causar ciúmes na escola do bairro Oswaldo Cruz, buscou inspiração no azul e branco da Portela para compor “Foi um Rio que Passou em minha vida”. Declaração de amor que ficou marcada como um dos mais importantes sambas já feitos.

Certamente, depois dessa homenagem, o ciúme foi-se embora, tão rápido quanto um feriado de carnaval.

  • Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia

“Sai do lixo a nobreza, euforia que consome. Se ficar o rato pega, se cair urubu come”. O que Joãosinho Trinta tem de de talentoso, tem de polêmico. O desfile da Beija-Flor de Nilópolis em 1989 não foi sobre a beleza das cortes europeias, ou sobre as maravilhas brasileiras. Joãosinho carnavalizou um enredo sobre o lixo. Colocou foliões vestidos de mendigos, teve o carro abre-alas censurado e realizou, com criatividade e coragem, uma apresentação inesquecível.

A Beija-Flor foi vice-campeã, por meio ponto. Mas a história jamais deixará essa obra de arte genuinamente brasileira ser esquecida.

6. Conclusão

A história do samba é mais que a história de instrumentos ou partituras. É a história de africanos, europeus, índios, de brasileiros. Apenas com nossa miscigenação, nossas singularidades, nasceria gênero tão popular, poético e rico. Apenas nós somos capazes de enxergar alegria em todos os momentos.

Só o brasileiro vive o samba tão intensamente. E só no Brasil é possível levar o samba para os momentos mais importantes da sua vida. Fale com a Apito de Mestre para celebrar à vida e à liberdade com muito samba no pé!

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